14 de jul de 2007

Anos 80: `Previna-se ou contamine-se´, a origem do punk rock baiano !


Anos 80: `Previna-se ou contamine-se´, a origem do punk rock baiano
· Danilo Fraga.
Era 6 de setembro de 82 e o Camisa de Vênus subia outra vez no palco do Vila Velha para tocar o seu repertório tosco e descarado. A platéia era um bando de punks subdesenvolvidos. E eles pulavam como loucos com suas correntes balançando. Tudo parecia normal, até que alguém de lá gritou "Bota pra fuder". "Bota pra fuder", responderam de cá meio cantando. Aí aquilo foi crescendo. E, em poucos segundos, todos gritavam em coro. Foi assim que o Camisa de Vênus virou um fenômeno nacional. E, daí em diante, em qualquer canto que a banda tocasse, alguém puxava esse grito de guerra.

"Não foi ensaiado, alguém puxou aquele grito", conta Marcelo Nova, o cantor do Camisa de Vênus. "Foi muito louco", resume Eduardo Scott, que estava na platéia e canta no Gonorréia, outra banda da cena de rock baiana da época. Isso foi há 25 anos. O Camisa acabou, Gonorréia também. E a cena de punk que se formou em Salvador a partir do Camisa de Vênus foi, aos poucos, esquecida. Mas alguma coisa estranha está acontecendo.
O Camisa de Vênus anunciou a volta neste mês [29 de abril em Divinópolis, MG] e o Gonorréia lançou até disco. Tudo bem que o Camisa já voltou outras vezes, fizeram alguns shows em 92 e, em 95, até gravaram alguns discos. Mas garantem que agora é pra valer. "Eu não curti muito das outras vezes. Agora quero tocar. É a formação e os arranjos originais", diz Karl Hummel, guitarrista da banda.

O Gonorréia acabou em 84 e não lançou nada. Isso foi corrigido com ´O Resgate da História´. "As matérias que falavam daquela cena sempre nos citavam. Outro dia, fui numa loja e vi um disco de um dos nossos shows. E vendia. Se o povo tá comprando essa tosqueira, porque não gravar algo novo?", conta Scott.

É para lembrar dessas e de outras bandas que o jornalista Hélio Rocha, 41, está escrevendo um livro sobre o punk baiano dos anos 80. Hélio fez parte dessa cena, tocou no Delirium Tremmens e agora toca no Gonorréia. "Não é uma biografia do Camisa, é um livro sobre a cena de rock dessa época em Salvador. Essas narrativas estão se perdendo na memória", diz. E o título do livro não poderia ser diferente. Bota pra F*.

"O ano 83 foi mágico, foi quando tudo aconteceu", diz Hélio. O Camisa de Vênus havia acabado de arrebentar no Teatro Vila Velha e agora todos queriam sua própria banda. O número de roqueiros cresceu. Logo havia 50 bandas tocando por Salvador. "Era uma cena maior que a de hoje", diz Eduardo, que formou o Gonorréia ao ser desafiado por Marcelo Nova. "Marcelo tinha formado o Camisa e disse que eu nunca ia formar uma banda com nome mais escroto que a dele. Eu pensei em Gonorréia, uma palavra horrorosa naquele tempo", conta. O Gonorréia era sarcástica e escrota. Não poderia deixar de ser. E o nome fez efeito.

Na noite de 2 de setembro de 83 tocaram juntos no Circo Relâmpago Camisa de Vênus e Gonorréia. No letreiro em frente ao circo estavam o nome das bandas e o conselho - previna-se ou contamine- se - escritos em letras garrafais. Uma viatura passava por lá e os homens foram tirar pergunta com as bandas. "Gonorréia é uma doença, não é palavrão", tentava argumentar Karl. "E Camisa é educativo", dizia Scoot. Não adiantou. O letreiro foi abaixo. "Mas quando eles viraram as costas, nós colocamos de volta", conta Karl. O Circo Relâmpago era armado na Pituba.

E o Circo Troca de Segredos, outro lugar roqueiro, ficava na Praia de Ondina. Lá se apresentavam os novos grupos baianos e os astros do rock nacional, como Blitz, Legião Urbana e Titãs. Os grupos de rock tocavam no Farol da Barra, na Ufba, no Vila Velha. Em Amaralina, a casa de serestas New Fred's virava reduto punk.

O primeiro festival a reunir essas bandas foi o Noites do Rock, em 11 de dezembro de 82, no Forte de Santo Antônio. Mas o maior foi o da Bandeirantes FM. Eram 32 bandas brigando pelo direito de gravar um compacto. Aquilo foi um verdadeiro campeonato, cada banda tinha suas torcidas organizadas, conta Jerri Marlon, que toca baixo no Delirium Tremmens. O resultado foi Gonorréia em primeiro, Skarro em segundo e Delirium Tremmens em terceiro. Mas ninguém nunca viu o prêmio.

"Na época, o difícil era gravar um compacto", diz Scott. Houve duas coletâneas: Rock 90 e Conexão Bahia. Muitos grupos terminaram e outros se converteram à sonoridade pop do rock brasileiro. Em 89, tudo parecia que ia engrenar. Não engrenou.

"O que rolava aqui antes do Camisa eram garotos cabeludos tentando tocar bandolim igual a Pepeu Gomes. O rock aconteceu, mas passou. "Na época não rolava nada. Raulzito foi embora e a cena desapareceu. Tinha uma ou outra banda, mas não cena de verdade. Era só a música da Bahia linda", conta Marcelo Nova.

"Não tinha rádio que tocasse rock e quase não tinha shows. O rock que eu tinha por referência era Rita Lee", conta Scott. Algumas parcas notícias chegavam pela revista Pop. Naquele tempo, os discos eram de vinil e as bandas estrangeiras eram lançadas aqui muito tempo depois, quando eram lançadas. Mas aí, Marcelo Nova viajou para Nova Iorque e trouxe na bagagem o que acontecia por lá e na Inglaterra: Ramones, Sex Pistols, Buzzcocks, The Clash. E colocou tudo isso para tocar Rock Special, programa que ele apresentava na Aratu FM.

"No programa ouvi músicas que talvez eu só ouvisse dez anos depois. Na época a gente tinha acesso a pouca informação", conta Karl. Essa foi a catequese de todo punk baiano da época. "O Rock Special era gravado na quarta e, na sexta, a gente ia pra casa de Marcelo pra ouvir. Aí, toda vez eu eu ia lá, eu e Marcelo inventávamos duas músicas. E, quando a gente viu, existia o Camisa de Vênus", completa.

"Minha idéia era esculhambar a Bahia, culturalmente. O Camisa era o catalizador, a válvula de escape, de uma raiva e indignação que estava engasgada em todos nós. Era algo que transcendia a música", conta Marcelo. A banda tinha uma legião de seguidores. O Camisa de Vênus fez sucesso e se mudou para São Paulo. E, em 1987, o grupo acabou. "É que Marcelo era mais velho e encheu o saco das meninices, atraso, doidera de banda", arrisca Hélio. "O Camisa de Vênus aconteceu em Salvador por alguns fatores que não vão se repetir. Era um marasmo na cidade, ditadura e tudo mais.

Aí, a banda trouxe o trem para o sertão. Mas depois disso, não dá para ter aquele impacto de novo". Nos últimos anos, a cena de rock baiana teve alguns momentos bons e muitos outros ruins. Nunca mais foi repetida a euforia do Camisa. "O principal problema é não cultivar uma tradição. As bandas não sabem quem é Karl Hummel. A gente tirava som único da guitarra que se perdeu", resume Hélio.

· Danilo Fraga é jornalista do jornal A Tarde, de Salvador.
ORIGEM DO DOCUMENTO: SENHOR F: www.senhorf.com.br
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